
[...]Era uma vez uma rainha que vivia com o seu real marido em palácio, mais os filhos, que eram um infante e uma infanta, assim deste tamanho, e então diz-se que o rei gostava muito de ser rei, mas a rainha é que não sabia se gostava o não, de ser o que era, porque nunca lhe tinham ensinado a ser outra coisa, por isso não podia escolher e dizer, gosto mais de ser rainha, ainda se ela fosse como o rei, que esse gostava de ser o que era porque outra coisa também lhe não tinham ensinado, mas a rainha era diferente, se fosse igual não haveria história , então aconteceu que lá no reino havia um ermitão que correva muitas aventuras e, depois de levar anos e anos a corrê-las, foi meter-se naquela cova, ele vivia numa cova do monte, não sei se já tinha dito, não era ermitão desses de reza e penitência, chiamava-lhe ermitão porque vivia sozinho, a comida de ele era o que apanhava, se lhe davam outra não recusava, mas pedir nunca pediu, ora uma vez a rainha foi passear ao monte com o seu séquito e disse à aia mais velha que queria falar ao ermitão para lhe fazer uma pergunta, e aia respondeu que este ermitão não é da igreja, é homen como os outros, a diferença é que vive sozinho num buraco, isto disse a aia, mas nós ja sabíamos, e a rainha respondeu, a pergunta que quero fazer não é de religião, e então foram andando e quando chegaram à boca da cova um pajem gritou para dentro e o ermitão apareceu, era um homen já avançado na idade, mas robusto, assim como uma árvore de encruzilhada, e quando apareceu pergontou, quem me chama, e o pajem disse, sua majestade a rainha, e pronto, por hoje se acabou-se a história , vamos dormir. [...]
José Saramago - Memorial do Convento






